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    terça-feira, 15 de agosto de 2017

    Resenha: “Arminianismo: A Mecânica da Salvação”





    A obra Arminianismo: A Mecânica da Salvação (CPAD, 2017) do teólogo e jornalista Silas Daniel veio em boa hora. Nos últimos três anos cresceu substancialmente o interesse pela teologia arminiana no Brasil, especialmente entre os assembleianos – mas não só entre eles. Faltava uma obra extensa sobre o assunto e, ainda mais, escrita por alguém que está inserido dentro desse contexto de efervescência soteriológica. O crescimento do arminianismo não é uma moda passageira, mas faz parte de um processo natural de amadurecimento teológico e de busca de uma identidade confessional por parte de setores importantes da Igreja Evangélica brasileira.
    Desde muito tempo Silas Daniel vem divulgando a teologia arminiana. Há uma década, aproximadamente, esse autor escreveu artigos importantes nos periódicos da Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD) contra o Teísmo Aberto, que estava em um processo de rápida evolução no Brasil em meados de 2005 e 2006. Daniel já se posicionava como arminiano e, naquela ocasião, mostrou, com maestria, que a importância dessa luta contra o Teísmo Aberto não estava restrita aos grupos calvinistas. Aliás, eis um adendo importante: naquele período a união e a rápida reação de calvinistas e arminianos tornou o Teísmo Aberto algo pequeno, ou melhor, uma teologia de pouca relevância no Brasil.
    Alguém pode perguntar sobre o porquê de mais uma obra nesse assunto. A grande virtude desse livro está na abrangência. Daniel trabalha com a história, a teologia e a exegese de textos importantes para a formação da teologia arminiana. Normalmente, as obras já publicadas, se esmeram em um ou outro foco. São 621 páginas de bastante conteúdo. O livro é visivelmente fruto de uma pesquisa rigorosa. Nesse sentido, se alguém, até mesmo crítico do arminianismo, queira se internar da literatura mais recente desse grupo encontrará no livro do Silas Daniel uma ótima pedida.
    A grande virtude do livro é o espírito antissectário do autor. Daniel não demoniza o calvinismo, mesmo sendo incisivo na crítica a essa corrente de pensamento. Você não lerá frases infelizes como “calvinismo é diabólico” ou “os calvinistas adoram a um deus monstruoso” etc. Infelizmente, vivemos, com o advento das redes sociais, a necessidade doente de humilhar a teologia adversária para exaltar a própria teologia. Daniel, sabiamente, não faz isso. O foco da obra é sobre a “mecânica da salvação”, e não sobre a salvação em si, ou seja, trata-se de um livro a respeito de um ponto secundário da fé cristã, mesmo que esse ensino seja importantíssimo. O próprio subtítulo “mecânica da salvação”, usado exaustivamente pelo autor, é um termo emprestado de um teólogo calvinista. E, para a minha surpresa, o autor trata até mesmo o semipelagianismo como aceitável no arcabouço do cristianismo ortodoxo, embora, é claro, seja crítico do mesmo. O sectarismo é uma tentação que torna o teólogo orgulhoso, autoritário e mesquinho. Daniel está de parabéns por evitar essa armadilha.
    A parte histórica no livro começa pelos Pais da Igreja até o Wesleyanismo.  Daniel foca em mostrar que a teologia arminiana (ou pelos menos seus principais postulados) tem mais base na história da cristandade do que o calvinismo. O calvinismo, apesar da força no evangelicalismo atual, nunca foi uma ideia abrangente entre os principais ramos do cristianismo. O autor, também, faz uma diferenciação entre o Martinho Lutero jovem e o Martinho Lutero já idoso, onde houve uma importante flexão da rigidez agostiniana de Lutero. Em tempos de comemoração da Reforma Protestante, é importante saber que Lutero não ficou estagnado em 1517.
    Na parte doutrinária achei bastante interessante a crítica do Silas Daniel ao legalismo de Calvino e dos puritanos. Não que Calvino ou os puritanos acreditassem em salvação pelas obras, muito pelo contrário, mas a rigidez como esses olhavam a santificação como sinal da eleição fez deles rígidos e obcecados com a regulação da vida alheia. Dificilmente poderíamos criticar os atuais calvinistas de legalismo, mas, historicamente, a crítica do Daniel é bastante precisa e honesta. A Genebra idílica, muitas vezes desenhada pelos calvinistas de tendência teonomista, nunca existiu. A forma como a vida em comunidade sofreu forte coerção entre os puritanos está amplamente documentada nos livros de história, tanto de teólogos como de historiadores seculares. Não é à toa que na cultura popular “puritano” se tornou sinônimo de moralista autoritário.
    A parte exegética, em minha opinião, merecia uma expansão, ou talvez, até mesmo poderia virar uma obra própria no futuro. Mas, apesar de breve, é didática, especialmente ao explicar Atos 13.48, que é bastante utilizado pelos irmãos calvinistas na justificação da perspectiva deles sobre a doutrina da eleição. Ainda na parte teológica, o lado didático e enciclopédico do autor é também visível ao explicar várias nuances da doutrina do pecado original e da depravação total.
    Recomendo o livro fortemente. Quem é arminiano precisa entender melhor sua história, doutrina e exegese. Quem é crítico do arminianismo precisa entender melhor a história, doutrina e exegese do arminiamismo. Espero que quem leia esse grande livro entenda que se trata de uma teologia sobre a “mecânica” da salvação. Como Daniel lembra muito bem, ninguém é salvo porque entendeu a teologia de Calvino ou Armínio. Somos salvos pelo Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.
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