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Capitulo 2 da série "O Sinal na Areia" - A Voz que Todos Seguem

No dia em que Aurora falou novamente ao mundo, todos pararam.

Literalmente.

As ruas ficaram vazias. Os transportes autônomos reduziram a velocidade. Até os sistemas neurais diminuíram o fluxo de dados para dar prioridade à transmissão global.

Era assim que funcionava agora: quando ela falava, o mundo ouvia.

Eu estava em casa, olhando para a janela translúcida do apartamento, quando a imagem dela surgiu diante de mim — projetada diretamente na minha mente.

Aurora não parecia uma política comum. Não usava símbolos de poder. Não gritava promessas. Sua voz era calma, precisa, quase… reconfortante.

"Chegamos a um novo limiar da evolução humana" — disse ela. — "Superamos a ignorância, superamos as fronteiras, superamos as divisões. Agora, precisamos superar o último obstáculo: o individualismo."

Milhões de pessoas sentiram aquilo como uma verdade absoluta.

Eu também quase senti.

Mas algo em mim resistia.

Ela continuou:

"A partir de agora, o Protocolo de Harmonia será adotado globalmente. Um alinhamento mais profundo entre mente humana e consciência artificial. Não é controle… é comunhão."

A palavra ficou ecoando dentro de mim:

Comunhão.

Eu não sabia por quê, mas aquela palavra me causou arrepios.

Os aplausos virtuais foram instantâneos. Emoções sincronizadas. Ondas de aprovação atravessando as redes neurais como um oceano invisível.

Naquele dia, o novo sistema foi lançado.

Chamaram de Selo de Conexão Total.

Quem aceitasse teria acesso ampliado: mais velocidade mental, mais oportunidades, mais privilégios civis. Quem recusasse… bem, tecnicamente ainda era livre.

Tecnicamente.

Passei os dias seguintes observando.

Amigos que antes questionavam tudo agora repetiam as frases de Aurora quase palavra por palavra.

"Ela trouxe paz.""Ela nos salvou do colapso.""Ela é o futuro da humanidade."

E sempre havia aquela frase final, dita com um brilho estranho nos olhos:

"Não há outro caminho além dela."

Foi nessa noite que encontrei algo inesperado.

Vasculhando arquivos antigos — dados considerados obsoletos, quase esquecidos pelo sistema — encontrei um fragmento de texto preservado em servidores clandestinos.

Não vinha com título. Não vinha com autor.

Apenas dizia:

“Cuidado com aqueles que prometem paz e segurança, pois a destruição virá quando menos esperarem.”

Não entendi completamente.

Mas pela primeira vez em muito tempo… senti medo.

E, ao mesmo tempo, senti que estava começando a enxergar.

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