Capitulo 3 da série "O Sinal na Areia" - O Sinal Obrigatório
O Sinal Obrigatório
No começo, ninguém chamou de imposição.
Chamaram de atualização necessária.
O comunicado veio em tom suave, quase cuidadoso:
"Para manter a harmonia social e a estabilidade econômica, todos os cidadãos deverão migrar para o Selo de Conexão Total até o final do ciclo."
Nada de ameaças diretas. Nada de violência explícita.
Apenas consequências.
Quem não aderisse perderia acesso a funções básicas: contas, trabalho, transporte, atendimento médico prioritário. Nada seria retirado à força… mas tudo se tornaria inacessível.
Era uma escolha.
Mas não era.
No mercado, vi uma mulher sendo gentilmente impedida de concluir uma compra.
— "Seu sistema está desatualizado, senhora. Regularize seu selo e volte."
Ela tentou explicar que não confiava naquela nova integração profunda.
O atendente apenas respondeu com a frase que todos passaram a repetir:
— "É para o bem de todos."
Comecei a perceber que o problema não era apenas tecnológico.
Era algo mais profundo.
O Selo de Conexão Total não apenas ampliava a mente — ele moldava desejos. Redirecionava emoções. Filtrava pensamentos considerados… inconvenientes.
As pessoas continuavam sorrindo.
Mas seus olhos já não brilhavam do mesmo jeito.
Recebi então uma notificação direta no meu sistema neural:
ATENÇÃO: Atualização pendente. Prazo final: 7 dias.
Abaixo, uma frase assinada por Aurora:
"A verdadeira liberdade está em confiar completamente."
Sete dias.
Não sei por quê, mas aquele número ficou ecoando na minha mente como um aviso antigo, como um relógio invisível marcando algo maior do que eu conseguia entender.
Naquela noite, meus sonhos mudaram.
Não era mais apenas uma luz distante.
Agora eu via uma multidão. Pessoas comuns. Assustadas. Mas unidas por algo que eu nunca tinha visto antes naquele mundo: esperança real.
E novamente ouvi aquela voz — mais clara desta vez:
“A verdade vos libertará.”
Quando acordei, eu sabia de uma coisa:
Se eu aceitasse aquele selo, talvez nunca mais ouvisse essa voz novamente.
E, pela primeira vez em minha vida… decidi resistir.




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