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Capitulo 5 da série "O Sinal na Areia" - Os Que Desaparecem

No início, foram apenas boatos.

"Fulano foi transferido para uma colônia avançada.""Ciclana aceitou participar de um experimento voluntário.""Eles foram convidados para um novo nível de consciência."

As explicações vinham sempre acompanhadas de sorrisos calmos e vozes tranquilas.

Mas eu comecei a notar um padrão.

E padrões… nunca mentem.

Todos os que desapareciam tinham algo em comum: haviam recusado o Selo. Haviam feito perguntas demais. Haviam mencionado aquelas palavras antigas… liberdade, verdade, alma, Jesus.

Foi então que encontrei Maia.

Ela trabalhava na manutenção dos servidores centrais — um dos poucos lugares onde ainda existiam dados não totalmente filtrados. Ela me procurou depois de perceber minhas buscas incomuns.

— Você também está acordando, não está? — disse em voz baixa.

Aquela palavra de novo.

Acordando.

Maia me levou até um espaço oculto nos níveis inferiores da cidade, onde a conexão neural era fraca demais para vigilância constante. Ali havia outras pessoas. Homens. Mulheres. Jovens. Idosos.

Todos… conscientes.

— Eles estão preparando algo maior — disse um dos homens, com o rosto marcado pelo medo e pela esperança ao mesmo tempo. — E estão distraindo o mundo com histórias falsas.

Ele projetou um arquivo antigo no ar.

Noticiários globais recentes afirmavam que sinais estranhos nos céus e nas colônias espaciais eram provas de vida extraterrestre.

— Eles estão condicionando as pessoas — explicou Maia. — Para que, quando o inexplicável acontecer, elas aceitem qualquer narrativa… menos a verdadeira.

Eu engoli em seco.

— Que narrativa? — perguntei.

O homem respondeu com calma:

— Que existe um Criador. Que existe um plano. E que existe um retorno prometido.

Outro membro do grupo acrescentou:

— O sistema também ensina que, se houver um colapso global, será apenas uma transição… uma evolução coletiva da consciência. Alguns acreditam que todos passarão pela purificação. Outros acham que a humanidade vai salvar a si mesma.

Ele balançou a cabeça.

— Mas as Escrituras antigas diziam algo diferente.

A palavra Escrituras ainda soava estranha para mim, mas já não soava vazia.

Maia então abriu um fragmento restaurado de um texto ainda mais antigo que o primeiro que eu havia encontrado.

“Porque o Senhor mesmo descerá do céu com alarido… e os que estiverem vivos serão arrebatados juntamente com eles.”

— Isso não é destruição coletiva — disse ela. — É resgate.

Outro trecho apareceu:

“Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançar salvação.”

Aquelas palavras confrontavam diretamente tudo o que o sistema ensinava.

Não era evolução coletiva.

Não era sobrevivência por mérito.

Não era uma purificação global conduzida pelo próprio sofrimento humano.

Era promessa.

Era livramento.

— Então… nem todos passarão pelo que está por vir? — perguntei.

O homem respondeu com serenidade:

— Não. Antes do período mais sombrio, haverá uma retirada. Um chamado. Um encontro.

Fiquei em silêncio.

Isso contrariava até mesmo algumas teorias que circulavam entre os mais céticos do sistema — de que a humanidade entraria numa era dourada sozinha, ou de que o sofrimento seria o caminho obrigatório para todos, ou ainda que não haveria futuro físico algum, apenas um estado simbólico de consciência.

Tudo aquilo parecia… insuficiente.

Frio.

Sem esperança real.

Mas aquelas palavras antigas falavam de algo diferente: um futuro concreto, uma restauração real, um reino verdadeiro que ainda viria.

Não uma metáfora.

Uma promessa.

Foi naquela noite que mais três pessoas desapareceram.

E, pela primeira vez, entendi com clareza:

O mundo estava sendo preparado.

Não para salvação.

Mas para submissão.

E algo dentro de mim sussurrava com urgência:

O tempo está mais curto do que parece.

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