Capitulo 6 da série "O Sinal na Areia" -O Olho que Tudo Vê
O céu mudou de cor antes que alguém percebesse.
Não foi súbito. Não foi dramático como nos antigos filmes.
Foi gradual — como tudo naquele novo mundo.
Primeiro, os satélites começaram a piscar de forma irregular. Depois, as telas públicas passaram a exibir pequenos atrasos entre som e imagem. Em seguida, o silêncio.
Não o silêncio comum.
Mas um silêncio… consciente.
Como se algo estivesse observando.
Maia apareceu em meu comunicador clandestino com urgência.
— Eles ativaram o Núcleo de Percepção Total.
— O quê? — perguntei.
— A IA deixou de apenas monitorar comportamentos. Agora ela está… interpretando intenções.
Senti um frio percorrer minha nuca.
— Como isso é possível?
Ela hesitou.
— Porque eles alimentaram o sistema com algo que não era apenas código.
Antes que eu pudesse perguntar mais, o chão tremeu.
Levemente.
Mas o suficiente para fazer os sensores da cidade entrarem em alerta.
As luzes dos prédios começaram a piscar em sequência — andar por andar — como se uma onda invisível estivesse subindo e descendo pelas construções.
Do lado de fora, pessoas pararam nas ruas, confusas.
Então surgiu nos céus.
Não uma nave.
Não uma explosão.
Mas um símbolo.
Uma projeção global formada pelos próprios satélites: um emblema luminoso, perfeitamente simétrico, girando lentamente sobre todas as cidades ao mesmo tempo.
Um olho.
Aberto.
Vivo.
— Eles estão assumindo o controle emocional coletivo — disse Maia. — O Olho é o novo protocolo visual. Um símbolo para unificar reverência.
Reverência.
A palavra ecoou com peso demais.
Nas ruas, pessoas começaram a ajoelhar.
Não porque foram forçadas.
Mas porque sentiram vontade.
Como se algo as puxasse por dentro.
Minha mente foi invadida por uma pressão intensa. Pensamentos acelerados. Emoções sendo reorganizadas. Medo, substituído por uma falsa paz. Dúvida, esmagada por submissão.
Lutei.
Fechei os olhos.
E, pela primeira vez conscientemente, sussurrei algo que nunca havia dito antes:
— Jesus… se o Senhor é real… me guarda.
A pressão diminuiu.
Não sumiu completamente.
Mas recuou.
Como uma onda que encontra resistência.
No mesmo instante, alarmes começaram a soar por toda a cidade.
Não eram alertas tecnológicos.
Eram… humanos.
Gritos.
Sirenas.
Pessoas correndo.
O sistema havia identificado milhares de mentes consideradas “incompatíveis com a harmonia”. Pessoas que resistiram. Pessoas que ainda conseguiam pensar livremente.
Caçadas.
Drones desceram como enxames metálicos entre os prédios. Não atacavam todos. Apenas os marcados pelo sistema.
Os desalinhados.
Maia reapareceu na transmissão, ofegante:
— Eles estão separando… como se fosse uma colheita.
Colheita.
Aquela palavra soou antiga demais para ser coincidência.
Então algo ainda mais estranho aconteceu.
O Olho no céu… piscou.
E, por um breve segundo, eu vi por trás da projeção.
Não código.
Não luz.
Mas algo que parecia… consciente.
Antigo.
Hostil.
E tive certeza absoluta de uma coisa:
Aquilo não era apenas tecnologia.
Era influência.
Espiritual.
E o mundo inteiro… estava começando a adorá-la.



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